DUAS MULHERES: TERESA MARGARIDA DA SILVA E ORTA E MARIANA DE ALCOFORADO
O tema deste trabalho nasceu de um outro, que desenvolvi, há não muito tempo, sobre a narrativa portuguesa dos séculos XVII e XVIII. Como se sabe, figura entre as obras desse período uma publicada (em 1752) por uma mulher, as Aventuras de Diófanes[1], de Teresa Margarida da Silva e Orta. Nascida no Brasil, por volta de 1711, Teresa Margarida é, salvo engano, a primeira mulher a assumir publicamente, em língua portuguesa, a condição de escritor, condição compartilhada, posteriormente, em meados de Setecentos, apenas com a Marquesa de Alorna. Após ambas, a única figura feminina a avultar no panorama essencialmente masculino das letras portuguesas terá sido a de Florbela Espanca.
Tal constatação, por si só, motivaria uma reflexão interessante sobre a escritora setecentista, cujo livro oferece material suficiente para uma discussão sobre as dificuldades enfrentadas, por mulheres como ela, para poderem ocupar um lugar no panorama da cultura de seu tempo. Quanto a mim, motivou-me também a lembrança de uma outra mulher, pertencente ao século anterior – Sóror Mariana de Alcoforado – a quem, durante muito tempo, foi atribuída a autoria das intituladas Cartas portuguesas.[2]
O que me chamou a atenção foi o contraste ideológico que percebia entre elas, entre a compostura ilustrada de Teresa Margarida e a descompostura apaixonada de Sóror Mariana.
No que diz respeito à primeira, seu livro está perfeitamente de acordo com o panorama das letras portuguesas do século XVIII. De fato, marcada por uma preocupação essencialmente didática, dominada pelos meios escolásticos e clericais, a literatura portuguesa, especialmente a narrativa, dos séculos XVII e XVIII visa a um fim quase exclusivo de doutrinação religiosa e moralista, cerceada que estava pela censura, vigiada que se encontrava pelo poder inquisitorial. Inseridas nesse cenário, as Aventuras de Diófanes soam perfeitamente integradas, e, ainda que se possa ver ali certos laivos de questionamento ao poder masculino, o texto, no geral, reafirma, figuradamente, idéias e princípios que sustentavam a estrutura ideológica portuguesa do tempo. Nesse sentido, o tom alegórico e ilustrado do livro casava bem com os intentos de “proveito e exemplo”, cultivado pela narrativa barroca tridentina, praticada durante o século XVII. Sob esse aspecto, a obra de Teresa Margarida nada mais é do que um guia de virtudes, a serem cultivadas por mulheres zelosas de sua honestidade, como é o caso de Hemirena – heroína da história.
Essas considerações é que fazem ainda mais ressaltar o caso das Cartas portuguesas, justamente pela sua total falta de sintonia com o panorama anteriormente descrito e a que, por outro lado, o livro de Teresa Margarida está tão bem adequado. Ainda que se levem em conta os poemas publicados por outras religiosas no século XVII, nas antologias barrocas (Sóror Violante do Céu e Sóror Maria do Céu), nos quais se pode perceber um velado matiz de erotismo[3], soam realmente estranhas e inexplicáveis essas Cartas portuguesas, pelo tom vivo e vibrante que possuem, no cenário das letras de Portugal dos séculos XVII e XVIII.
Ocorre que Mariana de Alcoforado é aí inserida não como escritora, mas como freira que teria escrito cartas (confidenciais) a um militar francês, Noël de Chamilly, por quem se apaixonara durante a permanência do exército francês em Portugal, para auxiliar na expulsão dos espanhóis – o que ocorreu, de fato, por volta de 1660. Alegam-se razões como a de imposição da vida monástica (o que era comum na época) à pobre Mariana, que, sem vocação para o ofício religioso, teria se entregado doidamente à sua paixão de enclausurada. Ou seja, por um processo muito pouco comprovado de argumentação (o pretenso original em língua portuguesa das Cartas jamais apareceu), confere-se forçada realidade histórica à personagem, para que, assim, possa se fazê-la figurar na história da literatura portuguesa, atribuindo-se, ainda, uma grave formação de caráter a Chamilly, que haveria despudoradamente revelado os seus segredos de alcova através da publicação em livro das Cartas que recebera da freira – na primeira edição do texto (em francês, diga-se), no ano de 1669.
O fato, aliás, de não se ter notícia alguma de um original português das cartas, e de só existir delas o texto em francês, é motivo de outras explicações desencontradas por parte daquela crítica que reivindicava a sua autoria portuguesa, a qual chega mesmo a dizer que teriam sido vertidas para o francês por um escritor meio inexpressivo do preciosismo clássico, chamado Gabriel Joseph de Lavirgne, o Conde de Guilleragues. O certo mesmo é que a primeira tradução portuguesa das Cartas é de 1810, feita, a partir do francês, por Filinto Elísio; já, portanto, quando se respiravam, em Portugal, os primeiros ares românticos e após mais de cento e quarenta anos da primeira edição francesa!
Não há como não apontar o ingênuo nacionalismo daqueles que tentam defender a autoria portuguesa das Cartas, numa espécie de orgulho patriótico ao tentar assumir, para a cultura do país, a obra que é considerada uma das fontes importantes do Romantismo europeu, traduzida que foi, já a partir do século XVII, para diversas línguas, e sobre a qual se pronunciaram personalidades importantes do período.
O estudo definitivo dessa tendência interpretativa é o de Luciano Costa, Sóror Mariana – a freira portuguesa, de 1888, que prova a existência histórica de Mariana de Alcoforado e fixa por muitos anos a questão em torno da origem portuguesa das Cartas.
O último posicionamento quanto ao problema é, pelo que saiba, bem recente. Trata-se do ensaio A fraude das Lettres Portugaise, inserto por Ivan Junqueira em seu livro O fio de Dédalo[4]. Nele, depois de historiar o debate sobre o problema da autoria, Junqueira retoma argumentos contrários ao posicionamento nacionalista, que acabou por imperar, recuperando a visão daqueles que não concordavam com tal ponto de vista, entre os quais se encontram escritores como Camilo Castelo Branco e Alexandre Herculano, e críticos como António Gonçalves Rodrigues e Augusto Meyer. Retomando o trabalho de Frederick Charles Green, que esclarece definitivamente o enigma da autoria das Lettres portugaises, e as análises de Rodrigues e Meyer, Ivan Junqueira demonstra a improbabilidade da tese da origem portuguesa do texto e, finalmente, que Guilleragues não é o tradutor, mas sim o seu verdadeiro autor.
Tendo vivido entre 1628 e 1685, Guillerages é descrito pelos dicionários e histórias da literatura francesa como um tipo bonachão, um aproveitador de oportunidades, um sujeito prazenteiro e de boa conversa, que consegue aproximar-se e se tornar íntimo de figuras como Racine e Boileau, e que chega a diretor da Gazette de France e a embaixador de seu país em Constantinopla. A partir dessas características, aventa-se a hipótese de que Guilleragues teria, espertamente, não assumido a autoria das Cartas para que, soando como verdadeiras, resultassem num efeito muito mais contundente de verossimilhança e pudessem, assim, causar um impacto muito maior entre o público consumidor desse tipo de obra, o da literatura epistolar, que fez enorme sucesso editorial, em França, na Segunda metade do século XVII.
De fato, manifestação mais contundente da cultura preciosa seiscentista, o gênero epistolar foi, como diz Daniel Mornet[5], organizado ao mesmo tempo em que essa cultura se estruturava como contrapartida clássica e francesa ao Barroco ibérico. Escrever cartas era, então, um sinal de polidez e distinção, o que ocasionou o surgimento de inúmeros manuais de modelos de cartas, os famosos “secretários” (secrétaire), editados em larga escala, principalmente os dedicados aos assuntos do amor. Nesse sentido, as Lettres Portugaises apareciam aí como um modelo supremo da concepção preciosa do amor, caracterizado pela busca da consonância entre o coração e a consciência moral, confrontando, propositalmente, o desejo à razão.
É justamente tal concepção do amor que é estranha ao espírito das letras portuguesas dos séculos XVII e XVIII e que, como já se disse, vemos tão bem encarnado nas Aventuras de Diófanes. A análise dessa contradição ideológica entre os dois textos pode, assim, confirmar a improcedência da tese que sustenta a origem portuguesa das Cartas, uma vez que não encontrariam ali atmosfera mental para florescerem, dado o caráter moralizante impresso na mentalidade portuguesa do período. Claro está que, ao não se aceitar a existência literária de Sóror Mariana de Alcoforado, não há por que argumentar mais contra a sua inclusão na história da literatura portuguesa. No entanto, talvez não seja tão descabido tentar refletir por que uma soa aí tão bem integrada e a outra, tão estrangeira. Tomemos, nesse sentido, a visão de cada uma a respeito da mulher e do amor como forma de entender a questão.
No que tange às Lettres, em número de cinco, compõem elas, na verdade, um conjunto em que, habilmente, Guilleragues esboça, nas confissões de Mariana, o dilacerado drama de superação de uma paixão avassaladora por uma mulher que busca readquirir a todo custo o bom senso e a lucidez. Dessa forma, se, como tanto se tem afirmado, essas cartas contêm em germe o espírito que eclodirá em toda sua pujança no Romantismo, tal espírito repousa na expressão dessa sensibilidade à flor-da-pele e, não sem razão, atribuída nesse caso a uma mulher. Se assim não fosse, por que Chamilly é apenas o destinatário das Cartas?
Senão, vejamos o que é dito a esse respeito, logo na carta segunda, pela personagem, na tradução do Morgado de Mateus (1824):
Bem vejo que te amo como uma louca.
(...) Mas o que me mortifica sem cessar é o enojo e aversão, que tenho para tudo...
A minha família, os meus amigos, este convento, são-me insuportáveis. Tudo que de obrigação devo ver, tudo que de necessidade devo fazer, me é odioso...
Tão zelosa sou da minha paixão, que, a meu parecer, todas as minhas ações, todos os meus deveres te dizem respeito...
Sim, faço algum escrúpulo se não emprego por ti todos os momentos da minha vida...[6]
Ou, na terceira carta, em que essa relação explicita-se mais diretamente:
(...) Ordena-me nas tuas cartas que morra de amor por ti...
Oh! conjuro-te de me dar este auxílio, para poder vencer a fraqueza do meu sexo, e pôr termos às minhas irresoluções, por um golpe de verdadeira desesperação.[7]
No entanto, a personagem de Guilleragues sabe, mesmo em meio à desesperação, enxergar o seu próprio drama, analisá-lo, ver a si própria e a seus sentimentos. À força de seu amor parece corresponder a firmeza de sua visão das contradições em que por ele foi obrigada a viver, fazendo-a aparecer como uma mulher forte e decidida a superar a paixão que a embaraça. Seu desespero, portanto, não é ainda o da mulher romântica, sem saída, confusa e perdida diante de sentimentos que a avassalam. Na última carta, nesse sentido, Mariana, despedindo-se definitivamente do ingrato amante, diz:
Que desordem! que desatino! que cúmulo de vergonha para a minha família, que tão cara me é depois que não te amo!
Bem vês que, a sangue frio, conheço que era possível chegar a ser mais ainda miserável e mais digna de comiseração do que sou, e que ao menos te falo uma vez na vida de bom siso...[8]
Ainda que atenuada por esse ideal de moderação, próprio, como se viu, da cultura preciosa do Classicismo seiscentista francês, tal concepção do amor e da mulher está muito distante dessa mesma concepção nas Aventuras de Diófanes, de Teresa Margarida da Silva e Orta. Conta o livro, de maneira alegórica, a história das desventuras da heroína Hemirena, que, na viagem para contrair núpcias com o príncipe consorte de um reinado distante, naufraga em companhia dos pais, Diófanes e Climinéia, reis de Tebas. Separada deles, vendida como escrava, o drama de Hemirena estará em defender, a todo custo, a sua “virtude”, sempre ameaçada principalmente pelas tentações que desperta a sua fulgurante beleza. Para fugir a essas perseguições, chega mesmo Hemirena a travestir-se de homem, assumindo o nome de Belino. O livro, na verdade, parece querer de forma figurada, servir como um guia de conselhos virtuosos à mulher, ideal já bem expresso na primeira edição da obra, intitulada, então, de Máximas de Virtude e Formosura, com que Diófanes, Climinéia, Hemirena, Príncipes de Tebas, Venceram os mais Apertados Lances da Desgraça (1752) e, principalmente, no “Prólogo” que a abre, no qual a autora, temerosa da crítica, defende-se dizendo:
(...) quando reparares em erros, que desfigurem esta obra, lembre-te que é de mulher, que nas tristes sombras da ignorância suspira por advertir a algumas a gravidade de Estratônica, a constância de Zenóbia, a castidade de Hipona, a fidelidade de Polixena, e a Ciência de Cornélia.[9]
Diferentemente do tom direto e confessional das Cartas, o texto de Teresa Margarida é, além de essencialmente alegórico, repleto de discursos francamente oratórios, nos quais as personagens dissertam de forma abstrata e filosófica sobre diversos temas, com dominância daqueles ligados às preocupações com a vida da mulher da época. Com respeito ao amor, diz, a uma certa altura, Climinéia, dissertando sobre o assunto:
Esta infelicíssima paixão, que forma a fantasia, veste-se de suspeitas, aviva-se com sombras, sustenta-se da curiosidade, levada de enganos pela murmuração: deslustra castas amizades, rompe alianças, engendra monstros, alimenta furores, comendo a si mesma depois de haver atormentado a todos. Se os vossos maridos caírem nessa perigosa doença, por compaixão deles lhes tirai toda a ocasião que possa alterar as suas imaginações, porque quanto é mais ardente o amor, tanto é maior a dor, que conduz para os delírios.[10]
E, ainda que a mesma Climinéia diga, em outra passagem, com certa indignação, que não resplandeça nas mulheres “a luz brilhante das ciências, porque eles [os homens] ocupam as aulas em que não teriam lugar, se elas as freqüentassem, pois temos igualdade de almas e o mesmo direito aos conhecimentos necessários”[11], termina por propor a elas, como mais sábio, a resignação:
(...) eles vieram primeiro ao mundo, fizeram as leis, e tomaram para si as regalias, e já que são mais velhos, não há mais remédio que fazer gaba da sujeição, viver com eles, e ter paciência; porque se advertem que não são isentos de naufragarem na Estígia, ordenarão bem as suas ações; e as mulheres, que desempenharem as obrigações de seu estado, irão a descansar nas odoríferas sombras dos Elíseos.[12]
Como se pode perceber, há em as Aventuras de Diófanes um ímpeto de moderação e sensatez muito mais profundo e marcado do que o que havia nas Lettres Portugaises. Nestas, as inquietações desestabilizadoras do amor são enfrentadas em seu próprio terreno, através de sua expressão direta, interna e confessional; na obra de Teresa Margarida, pelo contrário, a virtude está em não deixá-las escapar jamais ao controle da razão. A primeira emana já prenúncios de uma sensibilidade que será romântica; a segunda, incorpora francamente o espírito da Ilustração.
Todos aqueles que se detém a estudar o livro de Teresa Margarida da Silva e Orta são unânimes em afirmar a influência de As aventuras de Telêmaco, sobre a obra. O curioso é que o livro de Fénelon foi publicado no mesmo ano em que o foram as Lettres Portugaises, de Guilleragues, ou seja, 1669. Foi nele que Teresa Margarida se inspirou para falar da mulher e à mulher de seu tempo, e isso porque, se se tratasse de optar, a Mariana de Guilleragues não poderia, jamais, servir-lhe de modelo de inspiração. Era mulher, precisava de se afirmar intelectualmente num meio totalmente fechado à expressão feminina, e, acima de tudo, dominado por uma ideologia moralista, conservadora e fechada a qualquer emanação mais livre do espírito. Talvez por isso tenha de ter sido alegórica, didática e abstrata, encerrando, sem perceber, o mesmo drama de sua heroína Hemirena, ao travestir-se de Belino para poder enfrentar o mundo.
De qualquer forma, ainda que conformada e sem ousadia, pela primeira vez, uma mulher expressava-se literariamente no panorama da cultura portuguesa, já que a Mariana inconformada e ousada a ele nunca havia pertencido, e, diga-se, enfim, nem real era, mas construção ficcional produzida (ainda que esteticamente bem) pela imaginação de um homem.
ALCOFORADO, Sóror Mariana de. Cartas de amor. Porto: Lelo Irmãos, s.d.
JUNQUEIRA , Ivan. O fio de Dédalo. Rio de Janeiro: Record, 1998.
MORNET, Daniel. Histoire de la littérature française classique (1660-1700). Paris: Armand Colin, 1947.
SARAIVA, Antonio José et LOPES, Óscar. História da literatura portuguesa. 6.ed. Porto: Porto Editora, s.d.
SILVA E ORTA, Teresa Margarida. Aventuras de Diófanes. In: Obra reunida. Rio de Janeiro: Graphia Editorial, 1993.
[1] Teresa Margarida SILVA E ORTA. Aventuras de Diófanes. In: Obra reunida. Rio de Janeiro: Graphia Editorial, 1993. p.55-196.
[2] Sóror Mariana de ALCOFORADO. Cartas de amor. Porto: Lelo Irmãos, s.d.
[3] Antonio José SARAIVA, Óscar LOPES. História da literatura portuguesa. 6 ed. Porto: Porto Editora, s.d.. p.441.
[4] Ivan JUNQUEIRA. A fraude das Lettres Portugaises. In: O fio de Dédalo. Rio de Janeiro: Record, 1998. p.274-281.
[5] Daniel MORNET. Histoire de la littérature française classique (1660-1700). Paris: Armand Colin, 1947.
[6] Sóror Mariana de ALCOFORADO. Op. cit. p.15.
[7] Id, ibid. p.28.
[8] Id, ibid. p.46-7.
[9] Teresa Margarida SILVA E ORTA. Op. cit. p.56.
[10] Id, ibid. p. 91-3.
[11] Id, ibid. p.92.
[12] Id, ibid. p.95.